O resultado da avaliação dos 232 hospitais conveniados com o SUS, realizada pelo Programa de Satisfação dos Usuários da Secretaria de Saúde é muito importante para Pelotas porque entre os dez primeiros lugares estão duas instituições locais. Essa premiação, além de gratificar todos os profissionais que atuam naqueles hospitais, do operário mais simples ao diretor, mexe também com o nosso ego e comprova em parte a assertiva vinda de uma autoridade do governo segundo a qual Pelotas tem o maior "PIB intelectual" do estado na área de saúde. O Programa de Satisfação dos Usuários avaliou o grau de contentamento, a qualidade do serviço prestado e o tempo de espera para realização dos procedimentos. Seria interessante ver o resultado de uma avaliação desse tipo do ponto de vista dos usuários que esperam por um transplante, em especial de córneas. O Brasil tem hoje uma fila de espera por transplante de córneas com mais de dez quilômetros de extensão. Está dito assim porque ela já tem mais de 25 mil pessoas. São 1.300 gaúchos, dos quais cerca de 60 da região de Pelotas. Não existe uma justificativa para essa fila. Em primeiro lugar, ao contrário do que ocorre com órgãos sólidos (coração, fígado, rim etc) não é necessário se procurar um doador compatível para se realizar um transplante de córnea. Em segundo, são poucas as contra-indicações para a doação de córneas, ou seja, depois da morte, em princípio, pessoas de quaisquer idade e histórico de doença, podem ser doadoras, mesmo quando o óbito ocorre no domicílio. E mais, não é necessário um médico para fazer a retirada, pois esse procedimento pode ser realizado por técnicos treinados por um oftalmologista. E ainda, basta uma pequena caixa plástica estéril, daquelas usadas em exame de urina, um pouco de gaze umedecida com soro fisiológico e duas gotas de colírio para encaminhar o globo ocular para a Central de Transplante, que indicará o destino das córneas. O que está faltando? Um pouco mais de organização dos hospitais, aliada a uma pequena dose de boa vontade para com o coletivo. No caso de Pelotas, por exemplo, são cinco hospitais e um pronto-socorro regional atendendo a uma população aproximada de 850 mil habitantes. Ocorrem aqui, em média, 2.500 óbitos por ano mais de um terço dos quais com assistência médica e cerca de 200 por causas externas (acidentes e violência). Pesquisa recente mostrou que mais de 80% da população autorizaria a doação de órgãos e tecidos de um familiar. Seria possível então se ter, somente entre os óbitos por causas externas, pelo menos 160 potenciais doadores de córneas por ano. Na prática, não é bem assim. No final do ano passado, após assinarem contrato com a Secretaria de Saúde, dois hospitais locais passaram a receber 55% dos recursos do SUS para aqui carreados. Para tal, se comprometeram, entre outras coisas, a captar o mínimo de cinco (é isso mesmo, cinco) córneas por trimestre. Apesar de muito tímida, essa meta não foi cumprida até hoje. Duas coisas podem estar acontecendo: ou as Comissões Intra-Hospitalares de Transplante, principais responsáveis pela organização do processo doação-transplante no âmbito do hospital, não estão atuando como mandam as regras ou não têm o devido apoio da administração dos hospitais para agirem ou ambas. Seja o que for parece ser um caso de miopia administrativa que precisa ser corrigida com as medidas adequadas, que passa pela sensibilização de todos aqueles que atuam no hospital, do operário mais simples ao diretor. A propósito, transplante de córneas não cura miopia, mas é a única alternativa para alguns cegos enxergarem, quer seja perto ou longe.
