Aluna da Unicamp desenvolve pesquisa inédita para deficientes.

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Pela primeira vez na história da Unicamp está sendo desenvolvida uma pesquisa de mestrado sobre musicografia braille. Nela, sua autora Fabiana Fator Gouvêa Bonilha, de 25 anos, realiza uma crítica às metodologias de ensino tradicionais hoje existentes para deficientes visuais.Experiência? Fabiana tem de sobra e faz disso um exemplo vivo. Deficiente visual congênita, ela conta que desde a infância procurou criar uma certa autonomia para se relacionar com o mundo, desenvolvendo outros sentidos de forma mais apurada ainda. Traduz a sua deficiência em poucas palavras: "nasci aos seis meses, prematura portanto, por conta de complicações que impediram o parto de minha mãe ser levado a termo", diz. Fabiana foi aluna exemplar. Estudou Psicologia na PUC-Campinas e, a seguir, fez a graduação em música no Instituto de Artes (IA) da Unicamp. Há um ano, cursa o mestrado no IA, orientada por Claudiney Carrasco, professor da disciplina de sistemas Midi. "Tenho a certeza de que o trabalho de minha aluna, financiado pela Fapesp, poderá ajudar inúmeros deficientes a se comunicarem através da música", confirma.Uma das conquistas para os alunos portadores de necessidades visuais - relata Fabiana - foi a criação do Laboratório de Acessibilidade da Unicamp, localizado na Biblioteca Central (BC). Equipamentos computacionais adaptados e softwares que transformam pontos de braile em música ficam à sua disposição, principalmente às quartas-feiras, dia que interage naquele espaço com outros colegas.Com um Braille Music Editor integrado a interfaces do Programa Finale, o teclado do computador é transformado em teclado braile e possibilita salvar partituras em formato Midi, que podem ser exportadas para caracteres braile. Na prática, o teclado é acessado ao comando de uma voz mantida pelo software, em português lusitano. "Hoje, quase não escrevo nada à mão. O computador foi um marco para a escrita mais eficiente", elogia.A própria Fabiana expressa que nunca quis fazer de sua deficiência visual um peso e que sempre contou com o apoio da mãe para isso, particularmente durante a fase escolar. "Todas as pessoas convivem com determinadas limitações", afirma. Optou por não estudar em classes para alunos especiais. Sua mãe, que é professora de português, transcrevia toda linguagem corrente para o braile, leitura nada fácil para quem inicia, de acordo com Fabiana, uma vez que exige bastante esforço para dominá-la bem como uma metodologia sistemática. O mesmo ocorreu quando iniciou, aos sete anos, aulas de piano com uma professora particular. Com ele criou forte identidade, ampliada aos 13 anos, quando passou a estudar e buscar especialização no Conservatório "Carlos Gomes". Aos 18, ingressou na Unicamp, onde está tendo a chance de rever alguns conceitos musicais e de dar contribuições para a leitura de partituras em braile, feita, aliás, por pouquíssimas pessoas na atualidade, informa Claudiney Carrasco. Escrita - Além de piano, Fabiana toca flauta doce e também desenvolve outra particular habilidade, a de escrever. "Este acaba se constituindo um importante canal de comunicação", constata. Tanto que, aos 24 anos, lançou um livro em co-autoria com Mari Gândara, batizado Nós Deficientes, pela Imprensa Oficial. A experiência com a escrita vem se tornando uma constate. A pós-graduanda atualmente escreve um fascículo mensal para o Jornal "Diário Braille", que a Rede Anhangüera de Comunicação (RAC) edita, na área de Educação. Na coluna, Fabiana discute recortes sociais como inclusão social, deficiência e mercado de trabalho. Paralelamente, escreve ainda para a Rede Saci, um portal ligado à Universidade de São Paulo (www.saci.org.br), que publica variedades obtidas de diferentes mídias e que dão destaque à deficiência de um modo geral (leia um dos artigos). Fabiana também aprecia participar de uma lista de discussões, um egroups intitulado Braille M, que também integra videntes, termo empregado pelos deficientes visuais para se referir à pessoa que enxerga.Partitura em braile - Fabiana ministrou, no último dia 16, uma palestra no Laboratório de Acessibilidade da BC sobre "Métodos e técnicas de produção de partituras em braile". Sua abordagem permeou a criação do sistema braille pelo francês Louis Braile, que observou, na época, a técnica adotada por um capitão para se comunicar com seus soldados. O método sofreu algumas resistências, sobretudo pelo uso do alfabeto tátil e pela oposição dos videntes. Hoje, o sistema é amplamente difundido no mundo.  O braile se lê com a mão e é formado por 63 caracteres, com seis pontos. A combinação destes pontos formam o braile, que pode ter vários aplicativos. "Dizem que esse sistema está em crise", revela Fabiana. Mas, segundo ela, ao contrário, está avançando, a ponto de se escrevê-lo em frente e verso. O seu emprego na música também foi adaptado por Louis Braile. Daí o código musical passou por transformações até ser unificado.Em síntese, a musicografia braile, informa Fabiana, envolve leitura e escrita horizontais. Não se pode escrevê-la na vertical. A escrita não tem pauta nem clave. A altura das notas é mostrada pelas oitavas, numeradas para representá-la. Os sinais de oitavas seguem regras com intervalo melódico. Sua grande desvantagem é que inviabiliza a leitura de primeira vista e não proporciona noção global da partitura.

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