O mundo de Alice

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 Aos seis anos de idade, a menina Alice vivia a realidade social marcada pela pobreza e por ser portadora de problemas visuais e deficiência mental. Até ser matriculada em uma unidade de educação infantil mantida pela Prefeitura Municipal de Araraquara (SP), que oferece um programa de educação para alunos com necessidades educacionais especiais integrado à rede comum, ela nunca havia freqüentado qualquer escola. Foi ali que ela conheceu a pedagoga Maria Júlia Canazza Dall'Acqua, docente do Departamento de Psicologia da Educação da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, campus de Araraquara, e a dedicada professora Thaís Brunetti. A partir desse encontro, Maria Júlia dedicou-se à pesquisa de campo para a sua tese de doutorado intitulada Estimulação da visão subnormal de uma criança no ambiente escolar: um estudo de caso, sob orientação do docente Nivaldo Nale, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). "Estudei aspectos específicos da estimulação de visão de uma criança na escola", conta. Dela resultou também o livro Intervenção no ambiente escolar: estimulação visual de uma criança com visão subnormal ou baixa visão, recentemente editado pela Editora UNESP. "O livro pode ser um instrumento para professores que encontrem crianças com dificuldades similares àquelas vivenciadas pela professora de Alice." Para trabalhar com Alice, Maria Júlia precisou, antes, conhecer um pouco da realidade da garota. Abandonada pela mãe e órfã de pai, a menina ficou aos cuidados dos avós, trabalhadores rurais, que, dadas as condições culturais e econômicas, não compreendiam as limitações da menina. Achavam que ela precisava usar óculos e imaginavam que seriam suficientes para resolver os problemas que ela apresentava. "Por falta de estímulos, não destinava atenção a nada. Tudo o que pegava deixava de lado", relata a pesquisadora. Na realidade, ela apresentava uma visão residual de apenas 5% e também não possuía habilidades para aproveitar essa visão. "Alice desenvolveu, assim, o mecanismo de reconhecer as coisas pelo tato e pela boca. Apresentava, ainda, dificuldades de se situar em espaços desconhecidos." Em sala de aula não era diferente. Mal dá para imaginar a dificuldade em permanecer sentada e relacionar-se com outras pessoas. Nessas horas, o conhecimento do educador sobre educação especial e, sobretudo, sua postura frente ao desafio faz toda a diferença. "Meu estudo permitiu aliar um trabalho de estimulação de crianças especiais com a formação continuada de professores em ambiente escolar", enfatiza Maria Júlia. Durante um ano a docente manteve um trabalho regular com a menina, separada dos demais colegas, com o objetivo de ensiná-la a "olhar para" o que estivesse a sua volta, sem esquecer de que ela dispunha de maior utilização de sua visão para pequenas distâncias. "Era preciso que ela compreendesse a possibilidade de utilizar a visão na rotina diária", observa a pedagoga. Alice era estimulada a utilizar a visão por meio de inúmeros exercícios, como procurar a luz e imitar seu movimento; focalizar e pegar objetos ou lançá-los e acompanhar a sua trajetória. "O estudo indicou as dificuldades de se fazer inclusão de crianças com necessidades especiais em classes cujo professor não dispunha de uma orientação mínima quanto às peculiaridades que cercam tanto o desenvolvimento, quanto o processo de aprendizagem", aponta Maria Júlia. Para a docente da UNESP, não basta haver uma lei para levar uma criança com deficiências à escola. "A política de incentivo deve vir acompanhada de respaldo ao professor, para que ele possa sentir-se seguro em sua atividade", acredita. "Na área de educação especial, aqui na FCL, essa é uma preocupação muito forte entre os docentes", comenta. No caso específico de Alice, após um ano de trabalho, a criança obteve progresso em vários aspectos, inclusive quanto ao processo de alfabetização. "O vínculo que se estabeleceu com a professora e os colegas foi fundamental para consolidar os ganhos obtidos", enfatiza. "A capacidade de trabalho e a competência de Thaís foram fundamentais para o sucesso dessa pesquisa." Alice também aprendeu a fazer uso de instrumentos domésticos, talheres, por exemplo, além de cuidar da aparência e de sua higiene. "Ela revelou-se uma criança feliz." "É uma pena que não tenha permanecido na escola, visto que a família mudou-se da cidade. Sua história, no entanto, apesar de sofrida, possibilitou ampliar o aprendizado sobre as necessidades que cercam a educação especial", conclui a pedagoga da FCL.

Source: Unesp
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