Pequenas memorizações, esquecimentos (lapsos) ou relances são comuns a todos. O que muda é a facilidade de apreensão que algumas pessoas têm para fixar dados novos a curto prazo (work memory). "Se conseguirmos entender a lógica da memória visual a curto prazo, poderemos ter indícios de caminhos melhores para estudos como o Mal de Alzheimer", ressalta a psicóloga e professora Cláudia Correia Leite Fuhs. Este foi o tema de seu mestrado apresentado em dezembro de 2000 na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFLCRP) da USP. "Adotei os estudos de Walker, pesquisador da Universidade Harvard, e a partir deles tentei provar a existência de um traço comum entre o que guardamos em nossa memória e a relação de familiaridade e importância que mantemos com essas imagens captadas", conta Cláudia. Segundo a pesquisadora, possuímos dois tipos de memória: uma longo e outra a curto prazo. A primeira caracteriza-se por recordações realizadas depois de extensa exposição do fato ou acontecimento ter sido registrado. Na memória visual a curto prazo, todas as imagens são trabalhadas a menos de nove segundos, como se fosse um lampejo. Cláudia utilizou como método de análise duas condições experimentais em um grupo de alunos do primeiro ano de Psicologia da FFLCRP. Inicialmente, recorreu a letras e a figuras com alta similaridade (letras com grafia semelhantes como p, b, d, q e desenhos geometrizados). Em seguida, abstraía a primeira condição e acrescentava situações articulatórias e matemáticas ao exercício. Com isso, tentou avaliar até que ponto o efeito de recência - influência exercida pelo último estímulo apresentado - é alterado por intervenções externas. Para Cláudia, esse "efeito de recência", foco de seu trabalho, se apresentaria como se fosse um "eco visual", uma semelhança entre a última imagem captada e projetada pelo cérebro. "Desta forma encontramos indícios de que a recência pode utilizar recursos independentes dos utilizados pela memória a curto prazo, daí não alterar significativamente o número de acertos do sujeito. Assim, provamos que este "efeito" não é afetado pelas tarefas acrescentadas". Na área médica, sabendo-se que os sintomas do Mal de Alzheimer se manifestam geralmente após os 60 anos de idade, procura-se por uma possibilidade de detectá-la precocemente, para assim iniciar um tratamento e medicamento preventivos. Já na área psicológica, ao entender o caminho para esta disfunção, estaríamos a um passo de evitar os transtornos e depressão provocados por este Mal. Pacientes que sofrem de Alzheimer não conseguem aprisionar mais lembranças a curto prazo, assim tudo que é atual fica perdido. "O destino do paciente é ficar sem história recente e é por isso que aconselhamos o paciente que desconfia que esteja apresentando os sinais desta doença, a anotar todas as informações para tentar incentivar e manter a sua fixação", salienta a professora. Com possibilidades interdisciplinares, este estudo da memória fotográfica pode trazer inúmeras contribuições da psicologia à medicina, pois trata-se de uma pesquisa básica, cuja essência busca o conhecimento e a compreensão em si. "O seu uso e aplicabilidade depende de outros estudiosos que se dedicam à aplicação deste conhecimento", finaliza Cláudia. Informações: claudiafuhs@directnet.com.br
