Um dos efeitos mais perversos da discriminação e do preconceito contra os deficientes manifesta-se na maneira como essas pessoas se relacionam consigo mesmas. Com freqüência, elas sentem uma grande dificuldade para aceitar sua condição e, assim, superar melhor os obstáculos. Esse problema foi detectado pela pedagoga Mary da Silva Profeta, do Departamento de Educação Especial da Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC), campus de Marília, em sua pesquisa de doutorado "Mulheres com deficiência visual adquirida: aspectos humanos educacionais e socioculturais", defendida em junho. "Para que o deficiente visual possa levar uma vida normal, é preciso que ele aceite sua condição e procure utilizar sem preconceitos todo o tipo de apoio", enfatiza a pesquisadora. Para a realização do trabalho, Mary ouviu relatos de 16 mulheres deficientes visuais, 13 delas com formação superior e três com o diploma do ensino médio, que perderam a visão em idades entre 13 e 40 anos. Nele, a pesquisadora registrou como elas superaram traumas e lutaram para continuar os estudos, entre outras atividades. "Optei por não realizar entrevistas de maneira convencional, com perguntas e respostas diretas", afirma. Cada uma delas relatou suas experiências pessoais a partir de três temas: idade e causa da perda da visão, a relação com a medicina após o evento e a busca de curas alternativas. A maioria das entrevistadas perdeu a visão ainda jovem, fato que abalou intensamente as estruturas emocional e familiar. No momento em que ocorreu o problema, essas pessoas sentiram dificuldades em todos os círculos de relacionamento. "Isso contribuiu para que, por algum tempo, elas perdessem o encantamento com a vida e com o futuro", enfatiza Mary, citando que em todos os casos essa foi a fase mais problemática. Temendo a rejeição social, uma das entrevistadas que perdeu a visão em idade mais avançada preferiu esconder o problema dos próprios filhos. Outras se recusavam a usar bengalas ou a aprender o método braile de leitura. Segundo a pedagoga, essa atitude é até certo ponto compreensível, pois a pesquisa também revelou a dificuldade de algumas famílias para admitirem o problema. Em muitos casos, a dificuldade das entrevistadas em aceitar a nova realidade se revelou na crença de que um dia voltariam a enxergar. Sem perder as esperanças, as deficientes buscaram métodos alternativos de cura, quase sempre relacionados a crenças religiosas. "Elas esperavam por um milagre e procuraram inclusive centros de candomblé", afirma Mary. "Elas não suportavam a idéia de adotar para si o estereótipo de cegas." Superar os problemas advindos da deficiência e retomar a vida em outra condição demandou das mulheres pesquisadas enorme esforço pessoal, além do apoio de parentes. "O relato dessas experiências serve como exemplo de que o cego não é incapaz e pode, perfeitamente, conquistar um espaço na sociedade", destaca a pedagoga, para quem o mérito do trabalho é levantar argumentos úteis para auxiliar no combate ao preconceito, além de sensibilizar a sociedade para as necessidades e direitos das pessoas com deficiência visual.
