Em uma experiência com profundas implicações médicas e éticas, neurocientistas permitiram pela primeira vez que uma paciente aparentemente inconsciente, em estado vegetativo persistente, se comunicasse através dos pensamentos.
Uma mulher que sofreu um trauma na cabeça em um acidente de trânsito no ano passado e parecia incapaz de se comunicar ou reagir a qualquer estímulo jogou tênis e percorreu sua casa mentalmente quando solicitada a fazê-lo pela equipe de pesquisadores da Universidade Cambridge.
"Os resultados são surpreendentes", disse Adrian Owen, da unidade de ciências do cérebro do Conselho de Pesquisas Médicas, que liderou o projeto. A atividade mental da paciente de 23 anos foi mapeada através de imagens de ressonância magnética funcionais (MRI).
"Apesar do diagnóstico de estado vegetativo, essa paciente manteve a capacidade de compreender comandos verbais e de reagir a eles através de sua atividade cerebral, em vez da fala ou do movimento", disse Owen. "Sua decisão de trabalhar conosco imaginando determinadas tarefas quando solicitada representa um claro ato intencional, que confirmou além de qualquer dúvida que ela estava consciente de si mesma e de seu entorno."
Em prazo mais longo, a pesquisa abre a possibilidade animadora de que os pacientes que não podem reagir fisicamente de qualquer maneira - nem mesmo piscando os olhos - poderiam se comunicar controlando um computador com os pensamentos.
Os resultados vão avivar o debate ético sobre como tratar pacientes que estão há algum tempo em estado vegetativo e em que circunstâncias se deve desligar seu suporte vital. "Como esses pacientes podem estar conscientes e ser capazes de tomar decisões, é aceitável que outros ponham fim a suas vidas sem seu consentimento?", perguntou Narender Ramnani, professor assistente de neurociência cognitiva na Universidade Real Holloway, em Londres.
Em uma nota editorial incomum, a revista "Science", que publicou o estudo hoje, refere-se à tempestade política causada nos EUA pela morte no ano passado de Terri Schiavo, quando seu tubo de alimentação foi retirado depois de ela passar 15 anos em estado vegetativo. A publicação advertiu que o trabalho "apresenta um único estudo de caso, e portanto não deve ser usado para se generalizar sobre todos os pacientes em estado vegetativo, especialmente porque cada caso pode envolver um tipo de lesão diferente".
Os cientistas de Cambridge usaram uma máquina de fMRI de US$ 2,3 milhões para mapear as reações do cérebro da paciente às frases faladas. Estas mostraram que ela reconhecia algum nível de fala, mas não provaram que estava consciente.
Quando ela foi solicitada a imaginar que estava jogando tênis e depois caminhando por todos os cômodos de sua casa, as imagens do cérebro foram idênticas às da base de dados da pesquisa, de voluntários saudáveis, pensando nas mesmas atividades e, segundo Owen, foram absolutamente claras.
